write? more?

estou desde o dia 9 tentando me entender com um trabalho pra faculdade. tenho trabalhos pra faculdade há 12 anos e ainda não consigo me dar bem com o formato. é sempre um sofrimento quanto chega o fim do prazo (que raramente extrapolo, mas raramente não fico 24 horas acordada no último dia antes de entregar).

a questão é que escrever ficou muito difícil e eu não entendo bem por quê. fui formada pra ser crítica de literatura e acabo sendo autocrítica da minha própria literatura (e crítica). passar quatro anos sem precisar escrever um texto acadêmico enferrujou tudo e me endureceu. e agora teimo em ser careta, porque me falaram que eu tinha escrever menos “lindinho” e ter mais argumentação. menos cara de pau e mais citação.

não tá errada, mas me pergunto onde isso leva alguém. pra mim só leva ao mais do mesmo, mas isso é uma intuição (coisa que não devo usar, se quiser escrever uma tese a intuição deve ser hipótese e teste).

reclamei um pouco da dureza com minha ex-orientadora e ela me disse:

Lembre de Clarice : o que vou escrever já está rascunhado, só preciso passar a limpo. teu tempo de convivência com letras, o ás, carta do baralho cigano, afirma.

e eu tinha acabado de conversar sobre tarot.

gostaria que mais gente de todas as áreas conversasse comigo sobre poesia. na grécia antiga estava tudo na boca do povo, poesia era carnaval, era oral, o teatro era quase um trio elétrico. eu prometo que não é pra conversar comigo e eu dar aula. penso que talvez me deslocaria de uma inércia de pensamento, uma espécie de aporia em que os textos acadêmicos me deixam. e eu acabo não tendo saco de ler nada do que preciso ler.

tenho tentado entender qual é a minha necessidade de me deslocar fisicamente pra conseguir parir alguma coisa escrita. se eu ficar na minha mesa do todo-dia não sai nada, não.

enfim, já tenho tudo rascunhado. wittgenstein dizia: minha obra se divide em duas partes: a escrita e a não escrita. a última é mais importante, é claro.

pensamentos enquanto tomava banho ou shine on until tomorrow

it’s baby steps
you just have to get in that shower

hey
you’ll be ok
just survive through this
if you can’t then you can’t

quando paul mccartney fala “there will be an aswer” é uma questão de fé. o verbo tá no futuro, já se perdeu a possibilidade da resposta imediata da santa (lembrar que quem tá falando é a virgem maria, dizendo palavras de sabedoria), já que nem ela sabe a resposta, ela exige que a gente deixe quieto.

she won’t look out for you
you have to let go
but there will be an answer

chico e as duas postas

quando eu era adolescente, me levando pro pedro II, minha mãe me ensinou o que significava aquele verso “que te retalha em postas”, do chico buarque, de “tatuagem”. tudo bem, me disse que era a posta de peixe, e aí eu completei sozinha a imagem da cruz nas costas de alguém, fazendo uma divisão.

esses dias, ouvindo “futuros amantes”, lembrei da “posta-restante”, que é

  1.  sistema de envio de correspondência em que esta não é levada até o endereço do destinatário, ficando depositada no correio até que a reclamem.

de modo que, se quando minha mãe falou do verso de “tatuagem” foi pra se referir que os jovens de 2000 não sabiam interpretar texto, os jovens de hoje dificilmente saberão o que é posta-restante, depois da invenção do e-mail e do whatsapp.

era só isso mesmo.

o amor dos posts avulsos

sempre penso em como a vida seria diferente se eu alterasse um detalhe no percurso. o que seria feito de mim se, aos 17 anos, eu fosse tão aficcionada por mpb como sou hoje? eu teria feito música. fazer música não é só estar com um livro num canto e pronto, eu teria tentado cantar. e pra cantar eu teria que estudar, fazer exercícios, relaxamentos e teste vocálicos que mesmo tendo feito aula de canto eu não tenho saco de fazer. se eu tivesse feito música, será que teria mais coragem de cantar, menos vergonha de aparecer pra família, de me promover? minha vida seria completamente diferente e talvez me arrependesse de não fazer letras.

tenho visto aquela série que samuca me indicou, chef’s table. adorei o primeiro episódio, repudiei o inesgotável faro pra negócios do chef do segundo, agora o terceiro episódio me fisgou (não me fisgou exatamente, é falta de palavra melhor). ele começa que primeiro parece um filme do bergman, até o sotaque do francis mallman (o chef) não parece de uma pessoa da argentina, parece sotaque sueco. tudo muito escuro, lento, aquelas neves. sempre fico um pouco agoniada com a questão da carne: amo ver programa de culinária, mas nesses episódios o povo gosta de usar as coisas recém-mortas ou com aparência de bicho. nesse tinha três cordeiros, ou lá o que era, cada um pendurado de um jeito esticado no meio de umas varas que ficavam fincadas na neve. tudo em benefício do rústico, pra seguir aquela linha cenouras carbonizadas, feito com técnicas argentinas milenares: buraco no chão, enrolar o peixe numa argila que ele mesmo cata na praia, cortar uma árvore ao redor pra fazer de lenha…

enfim, além disso o homem me pareceu um mala, difícil de conviver. a mulher atual, que deve ser a décima quinta, tem um filho com ele mas eles não vivem juntos, passam uns 10 dias por mês juntos e é isso. achei isso até bem resolvido entre eles…

e um menino que estudou comigo, mas com quem não convivi muito durante a graduação lançou outro livro. sempre fico impressionada com ele, que tem um pouco menos da minha idade e foi finalista do jabuti, agora vem de companhia das letras.